Apesar de outras problemáticas que atravessam as mulheres – no meio corporativo, nos recortes sociais e raciais –, os casos de tentativa e consumação de feminicídio seguem cada vez mais aterrorizantes, provando, de norte ao sul do país, dos interiores às capitais, que esse é um problema endêmico e estrutural. Os réus são os mesmos: ex-companheiros, namorados, maridos e pais de seus filhos. Alguns confundem com paixão doentia, mas a real doença é o ódio pelas mulheres.
O mundo não é um lugar seguro para nós. Tivemos avanços em aspectos importantes – o movimento feminista, o reconhecimento do nosso valor, “uma sobe e puxa a outra”, “o lugar da mulher onde ela quiser”, “meu corpo, minhas regras”, tantas outras campanhas e movimentos, a liberdade para votar, dirigir, estudar – mas, infelizmente, a gente ainda não pode ir ali sozinha, porque somos o alvo mais fácil.
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O caso mais recente da vendedora Tainara Souza Santos, em São Paulo (SP), choca não apenas pela gravidade da forma como sua morte ocorreu, mas também pelas motivações do agressor. Tainara foi atropelada e arrastada de carro por um homem com quem nem chegou a ter um relacionamento sério, apenas por ciúmes dela seguir vivendo sua vida livremente. Mais uma mãe que deixa seus filhos órfãos pela covardia motivada pela misoginia – o puro ódio às mulheres.

Outro caso que chocou a mim e a todo o país aconteceu em Natal (RN). A empresária Juliana Garcia dos Santos levou mais de 60 socos no rosto do então namorado, um ex-jogador de basquete, dentro de um elevador. O que antes se sabia pelos gritos na vizinhança hoje acontece em ambientes públicos, monitorados, sem qualquer medo ou dissimulação por parte dos agressores.
Não são só os números de feminicídios. A gente vê mulheres que foram violadas nos seus direitos, nos seus trabalhos. Em 2011, no Egito, a jornalista norte-americana Lara Logan estava cobrindo as celebrações da renúncia do então presidente Hosni Mubarak, no auge da Primavera Árabe, quando foi cercada por mais de 200 homens, separada de sua equipe, abusada e estuprada. No Brasil e no mundo, mulheres são assediadas até no transporte público. No Rio de Janeiro existem vagões exclusivos para mulheres. Por quê? Porque homens expõem o pênis, se masturbam, ejaculam sobre mulheres em espaços coletivos. O que é isso? E ainda querem nos convencer de que o mundo está normal.
Meninas aprendem, desde muito novas, que não podem viver a liberdade de seus corpos e precisam usar short por baixo do vestido, calça por baixo da roupa. Mal começamos o ano e já tivemos uma situação para exemplificar: um sujeito, no Rio de Janeiro, violou o celular do filho, pegou o número de contato de uma coleguinha, uma menina de 13 anos, mandou nudes, ofereceu dinheiro e marcou um encontro. Ela, muito sabiamente, contou tudo para a mãe, que assumiu a conversa como se fosse a criança, encaminhou para a polícia e ele foi preso em flagrante por estupro de vulnerável – mesmo sem conjunção carnal.
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Nesta semana, me deu um nó na garganta o caso de Pedro Henrique Espíndola, que fugiu do Big Brother Brasil 2026. Ele não desistiu, ele fugiu do programa porque sabia que seria punido por tentar beijar à força uma colega de confinamento. Um sujeito que faz isso diante de um país inteiro, faz em qualquer lugar. Precisamos parar de tratar homens como meninos. Tocar uma pessoa sem seu consentimento é crime.
Nós não estamos seguras. Eu, por exemplo, ainda que me considere uma mulher independente e livre, não me sinto segura em lugar nenhum sozinha. Mesmo com amigas, ainda sinto necessidade da presença de um homem – não importa se cis, trans, hétero ou gay. Só assim me sinto realmente à vontade para ser quem eu sou. Não é garantia de nada, eu sei. Mas muda a forma como somos vistas.

Todos esses episódios afetam a saúde mental de toda uma nação de mulheres que passam a se sentir à margem de uma sociedade doente, além do sentimento de impotência. Quando e como isso vai terminar? Quando e como toda a sociedade vai compreender que se trata de uma problemática coletiva, cultural e educativa? Quando vamos pôr fim ao índice de quatro mulheres mortas por dia? Esse dado do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM) 2025, foi publicado pelo Ministério das Mulheres, que registrou 1.450 feminicídios em 2024 e 1.438 casos em 2023. Tão grave quanto, a média de estupros ficou em 196 vítimas por dia. Em dezembro completamos um ano da legislação federal de reforço às medidas protetivas das vítimas de violência letal, mas mesmo com esse maior rigor no controle de armas, e da ampliação das possibilidades de medidas judiciais de proteção, os crimes só aumentam – e o nosso temor também. O medo de andar só nas ruas, o medo de que o homem mais próximo nos violente.
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A sociedade se modifica muito devagar, ainda mais quando se trata de respeitar grupos vulneráveis. E aqui, falando não só como mulher, mas como mulher preta, é preciso que nos resguardemos na nossa integridade física, emocional e psicológica. Essa rede de proteção se dá entre nós mesmas e entre os homens aliados. Para 2026, meu desejo é que a sociedade se una para proteger as mulheres. Que a gente possa, em nossas ações cotidianas, ensinar nossos filhos e nossas filhas, acolher e orientar nossas amigas, familiares, conhecidas ou colegas de trabalho de que nossa vida vale mais que qualquer relação. Que precisamos prezar e valorizar nossa dignidade, para dormir em paz sem medo do inimigo ao lado.
O mundo é feito para nós, sim, e precisamos moldá-lo para que nosso legado seja mais seguro, firme e menos vulnerável para todas as nossas irmãs, parceiras, meninas, amigas, mulheres que estão por vir.

