Muito tem se falado sobre amizades de baixa manutenção. Caso o termo ainda não tenha chegado até você, trata-se daquelas relações em que duas pessoas raramente se veem, quase não trocam mensagens, mas sustentam um vínculo que aparentemente não muda — mesmo sem qualquer cuidado ativo para preservá-lo.
Para quem defende esse modelo, seria uma forma de afeto confortável: não é preciso estar a par de tudo o que acontece na vida do outro para que o amor e o carinho se mantenham. Pode ser que você passe três, seis meses sem notícias dessa pessoa — e, ainda assim, a relação continua sendo considerada amizade.
Repetimos que as amizades foram empurradas para esse lugar por causa do caos da vida adulta, que exige pagar boletos, dar conta de tarefas domésticas não remuneradas, perseguir o corpo dos sonhos, acompanhar debates e as infinitas referências da internet.

Quanto menos chances de escolhermos o que vamos fazer nas nossas horas, maior é o controle exercido sobre nossas dores e alegrias
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Na bolha progressista, nunca se falou tanto sobre como o tempo é um bem escasso e ferramenta de controle. A urgência do fim da escala 6×1 está aí para provar. É inadmissível que tantas pessoas tenham que escolher suas batalhas diárias como se a vida fosse um mero planejamento plurianual e estratégico.
Como ativista da mobilidade urbana, nunca estive tão convicta que direito à cidade é direito ao tempo. Tempo, tempo, tempo. Quanto menos chances de escolhermos o que vamos fazer nas nossas horas, maior é o sinal de poder sobre as nossas dores e alegrias. E, dentro dessa guerra com o calendário, sinto que temos falado muito pouco sobre como nossas amizades simplesmente deixaram de ser prioridade.
Tenho certeza de que você já enrolou para responder aquela amiga de longa data. A notificação ficou lá, te olhando. E tudo bem: às vezes, você realmente não quer conversar. Talvez, como eu, você esteja em mais de cem grupos de WhatsApp e não quer saber do aplicativo nem a pau. Mas pense comigo: você deixaria um flerte no vácuo por tanto tempo? Seria aceitável passar três dias sem responder um namorado?
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Eu sei bem que hierarquizamos relações, e por mil motivos. O que proponho aqui é uma revisão de hábitos, que provavelmente também são os seus. Quando aparece um show quase relâmpago de uma artista que você ama e você tem meios de ir, você vai. Eu mesma me desdobro para ir. Mas e aquele café com a amiga que você não vê há mais de um ano?
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Há quem diga que quem realmente quer, vai lá e faz. Eu discordo. Essa lógica pressupõe que as pessoas têm condições iguais de trabalho, estudo, cansaço e lazer, o que não é verdade. Ainda assim, sinto que existe, sim, uma certa falta de esforço e de demonstração de afeto nas nossas amizades — e elas são muito do que nos sustenta nesse mundo.

Esse papo furado de amizade de baixa manutenção tem servido como desculpa para não estarmos presentes na vida de pessoas importantes
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Vou além: a naturalização desse papo furado de amizade de baixa manutenção tem servido como desculpa para não estarmos presentes na vida de pessoas importantes. Dá trabalho marcar uma conversa uma vez no mês. Às vezes, tudo o que você quer é passar a tarde sem fazer nada. Mas esse nada, muitas vezes, é só trabalhar de graça para as big techs, entregando nossa atenção e o resto da nossa energia para timelines infinitas.
Acredito que, se há tempo para gastar meia hora assistindo a uma série de vídeos que você nem vai se lembrar no dia seguinte, também há espaço para cultivar vínculos reais. Uma das grandes violências da contemporaneidade é naturalizar a falta de habilidade ou possibilidade de fortalecer relações.

Quando estamos mais presentes na vida das nossas amigas, também fazemos a manutenção das nossas cidades
Quando estamos mais presentes na vida das nossas amigas, também fazemos a manutenção das nossas cidades. Ruas mais amigáveis são aquelas em que circula afeto. Os bairros mais felizes são aqueles em que conseguimos estar juntas, presentes, de mãos dadas. Não é preciso estar beijando na boca de alguém para fazer um bom piquenique ou dar uma pedalada. E não falo só da rua: nossas casas também ficam mais vivas quando nossas amizades passam por elas.
Este texto não é um julgamento sobre quem vive uma rotina difícil e não consegue gerir vínculos com a demanda exaustiva dos dias de hoje. Mas é, sim, um manifesto contra a normalização de conexões frágeis num mundo em que tudo o que precisamos é de cuidado e comunidade.
