“Sou escritor, poeta, cartunista, humorista… já me chamaram de tudo. Mas acho que a verdadeira arte é a que incomoda. O erro me interessa, é na rachadura da parede que o olhar fica preso”, diz Pedro Vinicio. No Trip FM, o pernambucano de 19 anos fala sobre infância difícil na escola, os primeiros desenhos na pandemia e como transformou memes e rabiscos em linguagem artística.
Nascido em Garanhuns, Pedro começou cedo: em 2020, aos 15 anos, passou a publicar na internet imagens e frases de um humor desconcertante que refletiam o momento de crise pandêmica e política no país. Seus desenhos viralizaram e conquistaram milhares de seguidores nas redes sociais, reconhecimento de seus ídolos e uma coluna na Folha de S.Paulo ao lado de artistas como Laerte.
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“Sempre fui muito mal no colégio, só aprendi a ler e a escrever aos dez anos. Eu era aquele carinha que a professora nunca imaginaria que ia fazer um livro”, diz ele, que em 2023 lançou sua primeira publicação, “Tirando tudo tá tudo bem”.
No papo com Paulo Lima, ele fala sobre família, processo criativo, política e a descoberta de que parar — simplesmente parar e sentir — pode ser tão revolucionário quanto desenhar. Você pode ouvir o programa no play nesta página, no Spotify, Deezer e no YouTube da Trip. Confira um trechinho a seguir!
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Você já disse que seu trabalho nasce do erro. O que significa isso pra você?
Pedro Vinicio. Eu penso que a verdadeira arte é a que incomoda. Às vezes eu faço um desenho todo rabiscado, cheio de coisas fora do lugar, só para ver a reação. As pessoas olham e dizem: “mas por que ele esqueceu uma vírgula?”. E é isso que me interessa, porque o erro chama atenção. Numa parede lisa, o que prende meu olhar é a rachadura.
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Você demorou a aprender a ler e escrever, e chegou a repetir de ano na escola. Como isso te marcou? Sempre fui muito mal no colégio. Só aprendi a ler e escrever de verdade aos dez anos. Eu era aquele menino que a professora olhava e pensava: esse nunca vai escrever um livro. Repeti de ano várias vezes, fiquei deprimido, passava o dia no fundo da sala desenhando. Mas minha mãe nunca me enquadrou, nunca me obrigou a seguir o que diziam as professoras. Ela teve paciência, deixou eu encontrar meu tempo. Acho bonito isso, porque no fim foi o que me salvou.
Você tem milhões de seguidores, mas também fala muito sobre desacelerar e simplesmente sentir. Como concilia essas duas coisas? A gente não sente mais nada, só pensa, só corre, faz terapia, tenta resolver. Um dia, voltando do Recife Antigo, fiquei no carro em silêncio, sem pensar em nada, e quando cheguei em casa chorei por duas horas seguidas, sem motivo. E foi bom. Hoje tento me permitir só existir. Meu ideal é ser feliz com o que tenho: posso passar dois dias comendo coxinha e café e estar feliz, ou tomar um suco de beterraba e também estar feliz. O importante é não viver correndo atrás da felicidade, mas estar bem.
